POR ESCRITO

Quando você vê, já foi!

O curta “Nada” (2017), de Gabriel Martins, traz os conflitos de uma adolescente diante do futuro

Fiz o vestibular no final de 2003. A wikipedia informa que naquele ano Lula assumiu a presidência, Mulheres Apaixonadas era a novela de sucesso das 9, o salário mínimo aumentou de 200 para 240 reais e Gilberto Gil recebeu o grammy latino de personalidade do ano. Eu não lembrava de nada disso. Mas lembro bem do clima das aulas de curso pré-vestibular: um ano em uma sala de aula abarrotada de gente em um prédio que mais parecia um galpão no centro da cidade. Um ano imersa numa nuvem de incerteza e cecê adolescente, com professores engraçadinhos e microfonados. Aula show, aula extra, aula de reforço, aula nos sábados de manhã, e às vezes, no domingo também. Aquele ano terminou – como não poderia ser diferente – com uma super aula de revisão. No encerramento, assistimos a cafonice motivacional do filtro solar, um vídeo narrado pelo Pedro Bial. Se sorri, foi de nervoso. Além do estômago embrulhado, sentia que além da escolha equivocada na inscrição para a prova, não sabia mais nada. Todas as fórmulas, números, datas e nomes (e rimas para decorebas) tinham virado poeira. Estudar, enfim, seria para a vida toda. E o filtro solar também. 

A história de Bia (Clara Lima) no curta “Nada” tem alguns desses elementos: as dúvidas, as pressões, as escolhas, e imagino, o estômago embrulhado. É numa aula de geografia sobre o encontro de placas tectônicas que a coordenadora (Karina Teles), em tons de laranja fluorescente, pergunta para a turma: “o que vocês estão pensando fazer quando vocês crescerem, qual a opção de vida de vocês?”. A postura da coordenadora é de animadora de festa: “quem sabe você não vai ser o futuro técnico da seleção brasileira?”, “medicina é uma excelente escolha!”, “muito bem, uma aluna decidida, uma pessoa que sabe o que quer, que tem foco, objetivo!”. É possível imaginar a sua decepção diante da resposta de Bia: “Nada”. Diante da insistência da coordenadora, Bia não titubeia, não quer fazer nada. 

Mas são também os pais que Bia precisa confrontar. Com delicadeza, sua mãe (Rejane Faria) lembra que a vida passa, “e passa rápido, quando você vê, já foi, já era, não tem mais jeito.” Em outra cena comovente, seu pai (Carlos Francisco) argumenta que Bia é a primeira geração da família com a possibilidade de entrar na faculdade. Bia é uma garota negra, questionadora e interessada em RAP, e todos esses elementos também constituem os conflitos do filme (e de uma garota como Bia no Brasil). Diante das possibilidades oferecidas pela escola e pela sociedade, parece mesmo difícil para Bia encontrar um espaço que acomode seus projetos de arte, música e contestação. 

O filme tem diálogos sensíveis, que colocam em discussão as percepções e as dúvidas de uma adolescente, os conflitos e os afetos de família, os muitos caminhos que a vida toma, mas que nem sempre são escolhas óbvias ou mesmo possíveis. Como uma personagem explica, “têm coisas que a gente pensa, têm coisas que a gente faz, e só depois vê no que dá”. Nas negociações com as circunstâncias sociais brasileiras, a corda é sempre bamba, especialmente para famílias negras como as de Bia. Mas se falta espaço para o RAP no país, a trilha sonora de “Nada” embala os espaços e os sonhos que fazem parte do universo da protagonista. 

Bia teve a primeira chance de fazer o vestibular em 2017. A wikipedia informa que foi um ano presidido por Michel Temer, com rebeliões nos presídios brasileiros e greve geral contra mudanças nas leis trabalhistas. É o ano da condenação de Lula pelo juiz Sergio Moro e da Operação Carne Fraca, contra as maiores empresas de carne do país. Para Bia, foi também um ano de suspirar fundo, revirar os olhos, tomar decisões sem garantia. “Nada” nos deixa com os questionamentos de Bia e com as angústias da sua família. Entre razão e rebeldia, fico com a Bia, mas também com os seus pais, com a sua tia (Bárbara Sweet) e até mesmo com a coordenadora fluorescente da escola. Num país onde os espaços para educação, pesquisa e cultura tem sido sistematicamente arrasados, um futuro em que “nada” se oferece como perspectiva é o que nos assombra todos os dias e é a resposta que jamais poderemos aceitar. Sobre o vestibular e o que vem depois: quando você vê, já foi!

Nada, 2017, 27'.

Sinopse: “Bia acaba de fazer 18 anos. O final do ano se aproxima e junto dele o ENEM. A escola e os pais de Bia estão pressionando para que ela decida em qual curso vai se inscrever. Bia não quer fazer nada.”

Quem fez?
Direção e roteiro: Gabriel Martins.
Produtora: Filmes de plástico (Belo Horizonte). 

Para saber mais sobre equipe e premiações:

Onde assistir?


FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. Quando você vê, já foi!. Blog Plástico Bolha, 2022. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/quando-voce-ve-ja-foi/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.