ficcionais

Jardin Exotique

Este conto faz parte do livro "Lição das Conchas", organizado por Luana Chnaiderman de Almeida, 2020. 

Tenório caminhava confiante por Monte Carlo, como se conhecesse cada linha da cidade. O que não era difícil, uma cidade tão pequena. E um sonho realizado. Tenório sempre quis habitar um pequeno reino que pudesse percorrer em uma curta caminhada, especialmente depois de um jantar no Le Petit Bar ou no Jardin Exotique em Fontvieille, o porto particular da família Grimaldi. Fazia um ano Tenório havia deixado a cidade de Americana, no Brasil. Mas isso era algo que não mencionava nunca. Não, o mar mediterrâneo azul cerúleo não poderia se misturar à água suja da Praia dos Namorados. Aos sábados, Tenório frequentava o cassino, aos domingos, assistia aos espetáculos da casa de ópera, um hábito novo que achou adequado cultivar, agora que estava ali. Tenório vivia sozinho em uma das mansões da Carré d’Or, nos arredores da praça do cassino. Há um ano os empregados eram sua única companhia. O motorista Javier, a governanta Matilde, a cozinheira Michelle e a passadeira Teresa. Teresa era para ele a mais fundamental, já que o smoking precisava estar impecável para o dia do cassino, os sapatos lustrados para o dia da ópera. 

Naquele sábado, Tenório chegou mais cedo da jogatina. A maleta de couro mais pesada do que de costume. Ganhara um milhão de euros com apenas três jogadas. Tinha muita sorte e achava sua vida inacreditável. Javier abriu a porta do Bugatti Chiron e Tenório desceu, triunfante, antecipando o êxtase que sentiria durante o espetáculo de ópera do dia seguinte. Matilde o recebeu em silêncio, enquanto Michelle preparava um whisky e uma porção de queijo Roquefort com torradas e caviar. Tenório cruzou o hall de entrada da mansão para em seguida percorrer um longo corredor. Destrancou a porta de um quarto e se aproximou de um pesado cofre, onde depositou o dinheiro da maleta. Como sempre fazia ao voltar do cassino, Tenório ligou a televisão. Imediatamente a sua visão entorpeceu. Era o rosto de Tenório que estava projetado na tela gigantesca e plana. O jornal descrevia um serial killer brasileiro do interior do estado de São Paulo, que jogava os corpos das vítimas nas águas pantanosas de uma tal “Praia dos Namorados”. Um homem milionário e perigoso, de aparência contida e serena e que poderia estar escondido em Monte Carlo. No corredor, Matilde se aproximava lentamente, com um sorriso no canto dos lábios. Sirenes e luzes coloridas. Era a polícia cercando a mansão. Desesperado, Tenório foi até o cofre, puxou todo o dinheiro para o chão e retirou afobado uma arma do fundo da prateleira. Os passos no corredor se multiplicaram. Mas antes dos pés da polícia chegarem até o quarto, Tenório morreu com o tiro que disparou contra a própria cabeça. Não sem antes lamentar ter perdido a chance de um último jantar no Jardin Exotique. Ao menos, morreria com um smoking bem passado. 

Javier e Teresa ficaram perplexos, paralisados na porta principal da mansão, observando os carros de polícia estacionar no jardim. Michelle, segurando a bandeja com o whisky e os petiscos, mordiscava uma coisa e outra, discretamente. Quando a polícia alcançou o quarto, o sangue de Tenório já escorria pelo monte de dinheiro espalhado no chão, agora manchado e iluminado pela luz esbranquiçada e intermitente da televisão. 

Desde então, a mansão da Carré d’Or ficou famosa por ter sido o refúgio, durante um ano inteiro, de um misterioso serial killer brasileiro. Pouco depois da morte de Tenório, a casa foi comprada por um excêntrico empresário local e transformada em um museu temático de quinta categoria, mantido pela visita de turistas curiosos que, provavelmente, passaram muito tempo assistindo a filmes norte-americanos.


FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. Jardin Exotique. Blog Plástico Bolha, 2020. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/jardin-exotique/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.