ficcionais

Dinossauro azul

Este conto faz parte do livro "Lição das Conchas", organizado por Luana Chnaiderman de Almeida, 2020. 

O que é o diacho do sapo cururu? Pensava a guriazinha, glup glup, entre um gole de gengibirra e uma mordida no pão com doce de leite, deixando cair farelo no banco da escola que era todo seu, todo recreio e o recreio todo. Adorava pensar e falar sozinha e aquele canto da escola era perfeito. Chegava em casa, zupt, ia pro banheiro tomar banho. Não é que gostasse de banho tanto assim, era só pra poder falar sozinha, sem o risco de alguém escutar ou responder. Mas a alegria durava pouco. Rapidinho a mãe batia na porta. Guriazinha, que demora é essa nesse banho? Mas que diacho, vai virar um sapo cururu! Sai já daí! A mãe era quem separava a gengibirra num cantil e o pão com doce de leite num potinho de dois andares. Nunca entendeu o porquê dos dois andares se o debaixo ia sempre vazio. Tudo de plástico branco, tudo combinando, tudo cabia direitinho numa lancheira de dinossauro azul. O tal dinossauro não era de desenho famoso, não era personagem, era um nada. Um nada de um dinossauro esquisito e azul que a guriazinha nunca tinha visto em outro lugar que não fosse naquela lancheira. Um dia até criou coragem, resmungou pra mãe, eu preferia uma lancheira com o sapo cururu. Pára de inventar moda, guriazinha! E mais uma vez a mãe amassou o pão com doce de leite, encheu o cantil com gengibirra e clec, fechou a lancheira do dinossauro azul, tão exclusiva que dava desgosto. E lá foi a guriazinha, pra escola mais um dia, falando sozinha pelo caminho, tum tum, sacudindo o dinossauro azul de um lado pro outro, pensando tantas coisas. No lanche do recreio, na qual seria a cor do sapo que canta quando está com frio, se existem merendeiras com a cara dele ou portas de banheiro que repelem mães, ou gente que leva bolacha de chocolate no andar debaixo do pote de lanche. E que talvez, não fosse uma má ideia dividir o banco do recreio com alguém um dia desses.


FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. Dinossauro azul. Blog Plástico Bolha, 2020. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/dinossauro-azul/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.