ficcionais

Farinha, fermento, Roquefort

Esta crônica faz parte do livro "Lição das Conchas", organizado por Luana Chnaiderman de Almeida, 2020. 

Um novo critério para ir ao mercado é responder afirmativamente à pergunta: “preciso de um banho?”. Além de leite, cenoura, arroz, cebola, laranja, molho de tomate, farinha, fermento e umas bolachinhas de qualquer coisa, constatei, precisava de um banho. Mas antes, as compras. 

Esquina da Sant Feliu de Codines com a Avinguda de Vallbona. Mercadinho de bairro. Pequeno. O mais próximo e sem muita variedade, mas tem as bolachinhas de qualquer coisa, então tá bom. É sábado de manhã e pelo jeito muito mais gente precisa tomar banho. Na fila, 1, 2, 3…8 pessoas na minha frente. Todas espalhadas na calçada. Mais ou menos um metro de distância entre uma e outra, sacolas reutilizáveis na mão, algumas de máscara, outras não. Um tanto de impaciência, um tanto de resignação. A fachada do mercado, inteira de vidro, permite contemplar o ritmo lento das compras pandêmicas. 

Do lado de fora, sol de lascar e nenhuma sombra na calçada. Repasso a lista de compras. Planejo o trajeto pelo mercado. Entro por ali, pego a cenoura, depois um pouquinho mais pra frente a laranja, o molho de tomate está perto do arroz no corredor do lado. Não encostar em nada, não se aproximar de ninguém, o cartão pra pagar está facinho no bolso, pra moça do caixa não ficar nervosa. 

Pela porta de vidro automática surge um funcionário. Luvas azuis e máscara branca, “próximo!”. Lembro de repente da minha dentista Sônia e da sua assistente Matilde me chamando na sala de espera do consultório, “próximo!”. Pena que aqui não tem revista ruim pra gente folhear enquanto espera. Nem daria pra ter. Li em algum lugar que o vírus fica 3 dias no papel. Ou 5 horas. Sei lá! Um senhor de bermuda branca e meia comprida acaba de tirar a máscara para tossir. Eu que até agora segurei três espirros só consigo pensar num spray de inseticida gigante pulverizando a quadra inteira. Um rapaz de bigode fininho cospe no chão. A senhora atrás de mim olha tudo com reprovação. Posso ver seus dois olhinhos se revirando. Em apoio, balanço a cabeça e reviro os meus olhos também. Será que ela notou?

“Próximo!” Opa, a fila andou mais um pouquinho. Uma mulher sai do caixa com a filha adolescente e 1, 2, 3…12 packs de cerveja! As duas ficam na área da saída, entre o caixa e a porta, atravancando o caminho, tentando organizar as compras nas poucas sacolas que trouxeram. Algumas caixinhas de leite. Muito amaciante. Cerveja, leite, amaciante. Ah, tá bom que vai tudo isso caber nessas míseras sacolas! Não vai mesmo. Olha lá, tá indo buscar mais sacolas, falei que não ia caber. Faltou planejamento. E agora fica ocupando espaço no único mercadinho do bairro e a gente aqui fora tendo que esperar nesse sol de lascar, com uns imbecis tossindo e cuspindo no chão. 

Farinha e fermento. Três semanas sem fermento, duas semanas sem farinha. E lá vem o carro com alto-falante da prefeitura. Barcelona se queda en casa, no se puede salir a la calle sin causa justificada. E também a polícia. Ah, que vontade de denunciar o bermuda-branca-meia-comprida e o bigode-fininho. Se me pararem, estou indo ao mercado comprar farinha e fermento, o senhor não sabe que está em falta e a gente precisa pra fazer pão e panqueca? Farinha e fermento são causas mais que justificadas, senhor policial. O senhor deveria ir atrás é do bermuda-branca-meia-comprida espirrando sem máscara na fila do mercado. Sabe, eu não vi ninguém saindo com farinha e fermento. Dane-se o planejamento. Eu vou direto pra farinha e pro fermento. Farinha e fermento, pão e panqueca.

De dentro do mercado, pela parede de vidro, uma senhora de vestido listrado mostra para o marido do lado de fora, duas embalagens de queijo, como quem pergunta, Roquefort ou gorgonzola? Gorgonzola. Péssima escolha, meu senhor. Roquefort é cremoso, esfarelento na medida certa, sabor intenso. Fica muito bom no creme de batatas. Roquefort, pego logo depois da caixinha de leite. Mas antes, farinha e fermento. “Próximo!”. Opa, andou mais um pouco. Conto na fila, 1, 2…5 pessoas na minha frente. Um tanto de impaciência, um tanto de resignação. Confiro o relógio. Haviam se passado somente três minutos.


FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. Farinha, fermento, Roquefort. Blog Plástico Bolha, 2020. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/farinha-fermento-roquefort/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.