ficcionais

Água, cerveza, water, beer

Esta crônica faz parte do livro "Lição das Conchas", organizado por Luana Chnaiderman de Almeida, 2020. 

Sabadou na Barceloneta. E tudo que me ocorreu fazer na praia mais turística de Barcelona foi sentar na areia em uma saída de banho estampada com a cara do Bob Marley. Aproveitar as vantagens de ser invisível em uma multidão distraída. Besuntada de óleo bronzeador Australian Gold, deixar a vida e a areia rolar. 

A tarde foi embalada pelo desafinado e disperso coral de “água, cerveza, water, beeeer!”. Oferta constante dos vendedores imigrantes, e que ficou ecoando na minha cabeça por dias, penetrando de modo irreversível na zona do meu cérebro de coisas que, sem muita explicação, jamais esqueço. 

Entre uma lambida de água nos pés e outra, uma moça caminhava distraída pela beira do mar, catando conchinhas, destoando do cenário, pela calmaria e olhar contemplativo. Em desacordo, um povoado de guarda-sóis amarelos dançava ritmadamente, não sei se com o vento ou com a batida do reggaeton, que vinha de uma caixinha de som em formato de melancia, há umas sete cangas de distância. Pulsava também outra alcoólica batida, “sangría, mojito, piña colada”, num equilíbrio delicado de bandejas flutuantes com drinks fluorescentes, salpicados com a areia que volta e meia formava pequenos redemoinhos entre os banhistas.

  “Massaje?”, ofereceu uma senhora oriental de mãos delicadas, tocando com ousadia os ombros da mulher que, por fim, recusou o serviço. Um maiô prateado reluzindo feito globo de discoteca. Um homem jogando futevôlei de fio dental verde limão. Uma moça tomando sol de shortinho do Bob Esponja. Vez ou outra passava um senhor com um álbum que exibia os desenhos disponíveis para tatuagens de henna, com muitas variações da mão de Hamsá. 

Entre um ruidoso grupo de rapazes, todos com celular na mão e fita laranja no pulso, um moço de bermuda jeans, com parte calculada da cueca Calvin Klein à mostra, tirava consecutivas selfies com vista para o mar. Acabou comprando um dos drinks duvidosos, que logo entraram no enquadramento da foto, quebrando o azul da composição com o líquido roxo-embaixo-verde-em-cima que fluía do copo para o canudo de plástico (e que, suponho, talvez tivesse uma textura inesperadamente crocante). 

Não posso confirmar se os ventos que chegam na Barceloneta são tão diferentes dos que espalham areia nos olhos e nos drinks dos turistas de outros lugares. Mas confesso, me rendi à uma selfie com fundo azul, que postei no Instagram com a legenda “Sabadou na Barceloneta!”. De repente, a areia se tornou um tapete estranhamente confortável e movediço, que dividi com gaivotas, pombas, pessoas, drinks duvidosos salpicados de areia e…água, cerveza, water, beer!


FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. Água, cerveza, water, beer. Blog Plástico Bolha, 2020. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/agua-cerveza-water-beer/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.