POR ESCRITO

Os retratos da memória de “Baile”

Em "Baile" (2019), acompanhamos as aventuras de Andréa, pelas fotografias 3x4 e outros tipos de retrato

[atenção! spoilers!]

Quando eu era pequena tinha um fascínio por fotografias 3×4. Guardava uma porção delas em uma carteirinha de plástico vermelha, específica para fotos desse tamanho. As fotografias podiam ser encaixadas em duas abas transparentes, numa estrutura que mais parecia de uma pasta de documentos em miniatura. Apenas duas fotografias ficavam visíveis, mas era possível guardar detrás delas mais algumas. E assim levar as pessoas em 3×4 no bolso, na carteira, numa gaveta ou num passeio. Lembro de uma fotografia 3×4 do meu pai. Em preto e branco eu o reconhecia jovem e cabeludo, belíssimo e ainda sem muitas perspectivas de trabalho. Um fragmento da sua passagem por alguma loja de revelações fotográficas da Curitiba dos anos 1970, preparando-se talvez, para uma entrevista de emprego.

As fotografias 3×4, tantas vezes guardadas com carinho, costumam ter o destino e a sisudez dos trâmites burocráticos. Por isso, há um modo de posar, de se vestir e de não sorrir para fotografias 3×4. No curta-metragem “Baile”(2019, direção de Cíntia Domit), a pequena Andréa (Emily de Jesus) acompanha o trabalho da mãe, Lurdes (Patrícia Saravy), com esse tipo tão comum de retrato, em um estúdio improvisado em casa, junto do salão de beleza que complementa a renda da família. O filme começa com a tela preenchida pelo rosto de uma senhora de cabelos encaracolados e brancos, batom vermelho e brincos perolados. Ao fundo, escutamos Lurdes dizer, “pensa numa coisa boa!”, “dona Vanda, não precisa ficar assim tão séria”. Apesar do pedido, dona Vanda não move os lábios, como se estivesse comprometida com as regras dos retratos para documentos oficiais.

Andréa observa da janela a mãe tirando as fotos e ajeitando delicadamente os cabelos de dona Vanda. A garota é também responsável por recortar as fotografias, entregá-las à cliente e cobrar pelo trabalho. Mas o desconto que oferece à dona Vanda parece ter um motivo, Andréa guarda para si uma das fotografias e escreve no verso o nome da retratada: “Dona Vanda”. Mais tarde, descobrimos, Andréa tem uma coleção de fotografias 3×4, que cola na parte do quarto, uma ao lado da outra, como numa exposição em miniatura de pessoas fotografadas pela mãe.

No sofá, Andréa pergunta para Lurdes, “Por que quando vêm aquelas velhinhas para tirar foto, você deixa elas bonitas? É só uma identidade!”. Lurdes explica que essas mulheres têm 80 ou 90 anos e “pode ser que seja a última foto da vida delas”. Puxa, que perspectiva espantosa para uma criança, que costuma experimentar a vida como se ela fosse para sempre, no que Andréa responde pensativa: “credo!”. Junto de mãe e filha, mora também a bisavó de Andréa (Adélia Garcia Domingues), uma senhorinha que padece de Alzheimer, e precisa de todo tipo de apoio para as coisas simples do cotidiano, mas que podem ser bastante complexas na sua condição. Observando Lurdes banhar a bisa, Andréa parece se dar conta que ela parece muito com as velhinhas que chegam ao estúdio para tirar fotografias 3×4.

Mais tarde, num passeio da escola, outra experiência importante vai mobilizar Andréa em torno de retratos. Sua turma visita a assembléia legislativa de Santa Catarina, e a professora apresenta a Galeria Lilás, onde ficam os retratos de todas as deputadas eleitas no estado. A professora destaca a figura de Antonieta de Barros (1901-1953), negra, brasileira e uma das primeiras deputadas do Brasil. As crianças reparam na diferença entre o número de quadros de ex-presidentes da assembléia e o número de retratos de deputadas homenageadas, apenas 15, em toda a história. Reparam também que os ex-presidentes estão retratados em pinturas, enquanto que as mulheres estão em fotografias. Há, portanto, diferenças no modo de compor essas imagens e de expô-las, com assimetrias marcadas por questões de raça e gênero que são destacadas pelo filme.

Os enquadramentos de cena nos indicam que a Galeria Lilás ocupa um espaço restrito de circulação, e o grupo da escola se acomoda entre a parede de exposição e uma escadaria. As fotografias das mulheres estão em molduras de vidro, e cada uma tem detalhes de composição distintos: há retratos em preto e branco, coloridos, com borda branca, com a bandeira do Brasil ou outras pessoas ao fundo da imagem. Já o interminável passeio que faz a câmera pela galeria de ex-presidentes nos mostra que todos são homens, brancos e seus retratos foram pintados sempre do mesmo modo, além de receberem uma moldura dourada, ocupando as paredes de um largo corredor, com ampla visibilidade.

Andréa acompanha a discussão em torno dos retratos com atenção, mas são os seus gestos que indicam o modo como se posiciona diante do tema: cola um retrato seu em 3×4 com um pedaço de chiclete mascado, posicionando-o no conjunto das pinturas de ex-presidentes. É uma delicada reparação, que se faz pelo gesto e pela montagem do filme.

Em casa, depois de tantas ideias sobre o que as imagens podem contar, Andréa aproveita a ausência da mãe para fazer algo especial. Pinta a bisavó com batom, coloca flores no seu cabelo, e a veste com blusa rendada e colar de pérolas, Andréa a prepara para uma fotografia. Talvez a última? Não se sabe, mas que seja bonita, “ô bisa, dá um sorriso! pensa em alguma coisa boa da tua vida!”. Vemos, no reflexo do espelho do salão de beleza – que acomoda também o estúdio fotográfico – que a bisa de Andréa sorri, e ao se reconhecer tão arrumada pergunta para a garota: “nós vamos pro baile, Susana?”. Nesta cena, estão entrelaçadas a imagem que é projetada no espelho, a imagem que ficará num retrato 3×4, o gesto de Andréa que intenciona uma lembrança futura, a pergunta da bisa que faz ecoar um passado distante. Fragmentos do tempo, a simultaneidade e os contrastes entre esquecimento e memória.

Há um detalhe que chama a atenção e pode causar algum estranhamento pelo deslocamento dos padrões de linguagem cinematográfica. O enquadramento do filme parece simular as proporções de um fotografia 3×4. Esse encurtamento no ângulo de visão não prejudica as composições e evoca uma ideia interessante, um cinema em 3×4. Sobretudo, o “Baile” nos conta – a partir de fotografias e pinturas – como pessoas “comuns” e pessoas “políticas”, brancas e negras, homens e mulheres, ocupam as imagens e os espaços sociais. Memória, história e afeto têm uma inescapável conexão com os retratos de todos os tipos, estejam guardados no bolso ou nas assembléias legislativas. Andréa reconhece e interfere nos sentidos das imagens, e faz pensar que crescer é também assumir responsabilidade pelos contornos da memória. O “Baile” nos convida a olhar as imagens pelo avesso, questionar os álbuns de fotografia, ocupar os enquadramentos, reconfigurar os espaços de imagem. Contar, enfim, outras histórias.

Baile, 2019, 18'.

Sinopse: Há dias que nos amadurecem mais. Andréa tem só dez anos e talvez ainda não perceba que seu dia foi assim.

Quem fez?
Direção e roteiro: Cíntia Domit Bittar.
Produtora: Novelo filmes (Florianópolis, Santa Catarina). 

Para saber mais sobre equipe e premiações:

https://www.novelofilmes.com.br/baile

Onde assistir?


FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. Os retratos da memória de “Baile”. Blog Plástico Bolha, 2022. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/os-retratos-da-memoria-em-baile/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.