Nas aulas de audiovisual

Ocupar a narrativa

Um dos muitos prédios abandonados de São Paulo já foi um dia um luxuoso hotel, o Hotel Cambridge, construído na década de 1950. No filme “Era o Hotel Cambridge”, o edifício de muitos andares se apresenta também nas suas áreas escuras, luzes coloridas, janelas quebradas, tijolos expostos, encanamentos com defeito e fios soltos. Entre ficção e documentário, o filme acompanha uma ocupação de pessoas sem moradia no antigo hotel. Um complexo tecido humano cobre e reinventa as ruínas do Cambridge, com pessoas de várias idades, do Brasil, Paraguai, México, Colômbia, Congo, Palestina, Líbano. 

No dia-a-dia as palavras também atravessam fronteiras, são cantadas e faladas em português, árabe, espanhol, francês. Há debates acalorados, encontros amorosos, videochamadas com familiares distantes, enfrentamentos com a polícia, roda de amigos para bebericar de madrugada, discordâncias, negociações, dança, festa, pão francês, assembléia, medo, solidariedade. Os apartamentos são organizados com móveis improvisados e xícaras de café, cortinas e lençóis de cama. A vendinha de alimentos é de Hassam, que cresceu na faixa de Gaza, e sempre se sentiu deslocado da ideia de país. Carmen é a líder da ocupação, com camisas brilhantes e postura firme e corajosa. A senhora Gilda é sorridente e participativa, vive também a dor de uma lembrança de quando trabalhava no circo. Apolo gosta de poesia e organiza uma apresentação teatral, quer fazer “retratos vivos”. Um congolês, segurando um telefone celular nas mãos, pergunta olhando para a câmera: “isso aqui que todo mundo usa, será que vem no manual de instrução que é feito de minerais de sangue?” O mundo todo parece caber nos vazios ocupados do Hotel Cambridge, o que também faz desse um filme épico, narrado na concretude do Brasil. Como é dito por um personagem: “Brasileiro, estrangeiro… somos todos refugiados, refugiados da falta dos nossos direitos.” A diretora Eliane Caffé explica que o filme foi feito com as pessoas da ocupação, também criadoras dessas histórias, que se são ficcionais, são do mesmo modo muito verdadeiras. “Era o Hotel Cambridge” possibilita uma escuta e um olhar cortante sobre as esquinas e janelas do mundo. O filme nos conta que há outras maneiras de conhecer e falar sobre as ocupações, as pessoas sem moradia e os refugiados no Brasil. Histórias que, se são singulares, também tocam a amplitude.   

Filme: Era o Hotel Cambridge. Direção: Eliane Caffé. São Paulo, 2017, 1 h 39 min.
Diretora: Eliane Caffé (São Paulo, 1961).  

FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. Ocupar a narrativa. Blog Plástico Bolha, 2021. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/ocupar-a-narrativa/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.