Nas aulas de audiovisual

A primeira cineasta

Alice Guy-Blaché (1877, França – 1968, Estados Unidos) foi a primeira mulher cineasta do mundo. Mais que isso, é de Alice o primeiro filme narrativo de que se tem notícia: “A Fada do Repolho”, de 1896, sobre uma fada que colhe bebezinhos numa plantação de repolhos.

Mas o documentário que conta a sua história – “Alice Guy-Blaché: a história não contada da primeira cineasta do mundo”- , conta também outras histórias. Por exemplo, como a produção cinematográfica se constituiu nos Estados Unidos, empurrando mulheres para fora dos cargos de decisão, assim que o cinema ganhou escala industrial. Ou ainda, como a história do cinema foi narrada a partir da França, entre rumores equivocados e ocultamentos sistemáticos. Em todos esses movimentos, uma mulher competente e produtiva como Alice Guy-Blaché recebeu pouco espaço e consideração, apesar do trabalho desenvolvido em centenas de filmes, por 20 anos, nas mais variadas funções. E é por isso que num documentário sobre Alice é preciso contar sobre o trabalho necessário para reconstruir sua história. Afinal, é preciso localizar documentos, reivindicar sua autoria, explicar como seus filmes foram experimentais, inventivos e plurais e apresentá-la para cineastas e historiadores desconfiados ou desinformados. Sobretudo, é preciso tensionar o modo como pensamos a história do cinema, os acervos fílmicos, os catálogos, as exposições, as técnicas de preservação, as escolhas sobre o que se guarda e o que se deixa deteriorar, em outras palavras, as instituições e as decisões que permitem que alguns filmes continuem sendo vistos e conhecidos, enquanto tantos outros desaparecem. Estas iniciativas nunca foram neutras e costumaram deixar muita gente, muitos filmes e muitas histórias importantes de lado. 

Como numa boa narrativa biográfica, mais do que uma versão definitiva sobre a trajetória de Alice no cinema, o filme é também sobre filmes perdidos, disputas intermináveis e perguntas sem resposta. O documentário narra eventos, instituições, pessoas, países, conflitos e trajetos, dentre as múltiplas circunstâncias que permitem ou não fazer cinema. Por fim ficamos com a instigante sensação de que são muitas e incessantes as perguntas a se fazer sobre as histórias do cinema! 

Filme: Alice Guy-Blaché - a história não contada da primeira cineasta do mundo. Direção: Pamela B. Green. Estados Unidos, 2018, 1 h 43 min.  

FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. A primeira cineasta. Blog Caleidoscópica, 2021. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/a-primeira-cineasta/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.