Nas aulas de audiovisual

Um mercado onde trabalhar cansa

“Olha só esse pé direito que maravilha, Helena! Isso aqui é um achado!”, diz Soraia, a corretora de imóveis que tenta convencer Helena de que o espaço é adequado para o seu sonho empreendedor: um mercadinho de bairro. As duas caminham entre prateleiras empoeiradas, carrinhos de compras, uma luz intermitente e a fumaça do cigarro de Soraia, serpenteando pelos enquadramentos e acentuando a névoa de perguntas que encobre o lugar. Soraia, como boa corretora, garante: “não se fazem mais construções como essa”, “isso aqui você passa uma pintura por cima”, “esses canos são ótimos”. Promessas de sucesso, num lugar abondado com balcões, expositores, produtos vencidos, plaquinhas de “volte sempre”, dezenas de baratas e uma misteriosa fotografia. Logo, alguns produtos somem do estoque e Helena suspeita de um dos funcionários. O clima de cordialidade entre patroa e empregados vai rapidamente indo embora, junto com as flores distribuídas aos clientes no período de inauguração. A decoração de natal inclui um papai noel que dança desajeitado, guirlandas, gorros e máscaras natalinas, na cabeça dos funcionários e no contorno de cestas de frutas e verduras. É nesse clima que um cheiro forte e um vazamento toma conta do lugar, preocupando Helena. Afinal, o que teriam de errado os encanamentos do mercado Curumim? É só no carnaval, entre fitas coloridas e brilhantes, que Helena descobre uma mancha enorme na parede, logo atrás dos salgadinhos de bacon Delatassi. 

Filme: Trabalhar Cansa. Direção: Juliana Rojas e Marcos Dutra. Brasil, 2011, 1 h 39 min.  

FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. Um mercado onde trabalhar cansa. Blog Plástico Bolha, 2021. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/um-mercado-onde-trabalhar-cansa/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.