Nas aulas de audiovisual

Como pode ser um projeto audiovisual?

Essa postagem é sobre alguns tipos de produção audiovisual, que são muitos e, frequentemente, são híbridos.

ficção

A palavra ficção pertence à família do verbo latino “fingere”. Uma produção ficcional pressupõe um acordo com quem assiste, que entenderá a obra pelo seu caráter de fabulação, imaginação e fingimento. Personagem, cenário, figurino e trama são alguns dos elementos de um universo ficcional, que dialoga com estruturas narrativas da literatura, com o teatro e a dramaturgia. Assim, são muitas as narrativas que podem ser ficcionais: romances e contos, filmes e séries, histórias em quadrinhos. No audiovisual é comum encontrar as produções classificadas por categorias. Destaco algumas das mais recorrentes classificações ficcionais:

Drama - Romance - Aventura - Ficção Fantástica - Ficção Científica - Suspense - Terror - Comédia 

A ficção, é claro, pode ser uma camada de muitos outros tipos de produção audiovisual que veremos mais adiante. Embora a classificação de um filme leve em consideração o aspecto que tem maior destaque na obra, vamos encontrar pitadas de comédia num drama, de suspense numa ficção fantástica ou de terror numa aventura. 

exemplos de ficção:
“Eu não quero voltar sozinho” fala da relação de Leonardo, um adolescente cego, com seus amigos Giovana e Gabriel. Em “Estátua!” a babá Isabel consegue um emprego para cuidar de Joana, mas as coisas saem inesperadamenteo do seu controle. “Quintal” é sobre acontecimentos fantásticos em uma casa comum de Contagem, Minas Gerais. Vinil Verde mistura terror e fábula, contando a relação de uma garotinha com a sua mãe. A menina do algodão foi inspirado na lenda da menina morta que teria aparecido em banheiros de escola do Recife nos anos 1970. “Eletrodoméstica” é sobre um dia comum na vida de uma dona-de-casa de classe média, com destaque para sua relação com os eletrodomésticos e eletrônicos da casa. O canal Porta dos Fundos é talvez o maior produtor de esquetes cômicas audiovisuais no Brasil, passando pelos mais variados temas. “Mãe na prisão” é uma paródia de outro gênero audiovisual – o jornalístico-, tendo a ironia e o exagero como características marcantes.

Há produções ficcionais que usam as redes sociais como espaço de circulação, incorporando a linguagem desses dispositivos para criação, com aplicação de filtros para criação de personagens e fundos virtuais para criação de espaços cênicos. “A vida de Tina” é um projeto das atrizes Isabela Mariotto e Julia Burnier, com muita ironia e deboche. A atriz Livia La Gatto construiu uma série de personagens que apresenta no instagram, como Bernardinho, Betina – a advogata,  Consuelo Dicaboa, Tiffany, PabloPig e TheMônia. A atriz Maria Bopp interpreta nas redes sociais a blogueirinha do fim do mundo, fazendo críticas sociais e políticas usando a linguagem da blogueiragem de internet. Ilana Kaplan apresenta dicas de etiqueta misturadas à críticas sociais pela personagem Keila Mellman, e Lorrane Silva cria esquetes cômicas sobre os mais variados temas cotidianos na página do instagram Pequena Lo

documentário

Documentários podem combinar fontes diversas para construir uma narrativa como, por exemplo, entrevistas, fotografias, jornais, revistas, cartas, depoimentos, etc. Pode ser informativo, didático, científico, biográfico e até mesmo poético. Um documentário pode conter simulação, reconstrução e especulação acerca de um determinado acontecimento, tema ou comunidade. 

O cineasta Eduardo Coutinho produziu muitos documentários de entrevista, que estruturava pela ideia de “dispositivo”. O dispositivo de Coutinho consistia em delimitar um contexto temporal e espacial para produzir um filme. “Edifício Master”, por exemplo, foi filmado durante algumas semanas no Edifício Master, em Copacabana, no Rio de Janeiro, com a participação de muitas pessoas que habitavam o prédio naquele momento. Embora exista uma dose de imprevisibilidade neste tipo de projeto, há uma série de definições prévias, por exemplo, quem participa do filme, as perguntas a serem feitas, onde e quando as filmagens acontecerão. E é claro, a edição pode assumir muitos caminhos e sentidos diferentes, a depender de como os materiais são justapostos. 

Em geral, documentários de longa duração podem apresentar, por exemplo, reconstruções de acontecimentos históricos, investigações criminais ou uma análise em torno de um determinado tema, acolhendo diferentes pontos de vista. Pode ter caráter autobiográfico ou biográfico, focalizar em eventos pessoais ou coletivos ou misturar ambas esferas. Embora o documentário tenha um compromisso com a “verdade”, irá esbarrar com a ficção e com a incerteza muitas vezes. Um documentário é sempre um ponto de vista, e por isso é sempre parcial. Como qualquer narrativa, a seleção e justaposição de fragmentos deixará sempre muitas outras coisas de fora.

exemplos de documentários:
A avó da diretora Bruna Callegari é a protagonista de “Retrato de Dora” e é apresentada pela casa onde mora, por fotografias e objetos antigos e algumas lembranças do passado. “Mulheres de Barro” conta sobre uma comunidade de mulheres que produzem panelas de barro. “O relicário das ruas” apresenta pessoas moradoras de rua e alguns dos objetos que guardam consigo. “Não toca no meu cabelo” acompanha a 3ª Marcha do Orgulho Crespo em São Paulo. Entre Telas é um documentário de entrevistas sobre mulheres no audiovisual e foi realizado durante o FERA (Feminismo e Equidade para Reinventar o Audiovisual), que aconteceu em Recife em 2018. “Recife Frio” é uma paródia de um documentário e conta sobre um evento meteorológico extraordinário: a alteração radical das condições climáticas de Recife.

cinema de arquivo

Os filmes de arquivo podem ser documentais, ficcionais, ensaísticos, poéticos. Neste tipo de produção, os documentos – fotografias, jornais, cartas, diários, etc – tem centralidade. No Brasil, o “Arquivo em Cartaz- Festival Internacional de Cinema de Arquivo” trata especialmente deste tipo de produção.

exemplos de cinema de arquivo:
Os documentos e arquivos podem aparecer como colagem, como é o caso de “Pudim de Morango”, no qual os jornais impressos produzem um plano de fundo para a animação, mas também comentários políticos, texturas e alguns intertítulos. “Travessia” condensa múltiplos deslocamentos temporais e espaciais, e inicia com a fotografia de uma mulher negra segurando um bebê, o ponto de partida para discutir a memória fotográfica de famílias negras no Brasil. Em “Antes de ontem”, o diretor Caio Franco reflete sobre a própria identidade racial, a partir de uma coleção de fotografias pessoais. Em “Retrato de Dora” documentos pessoais, fotográficos, audiovisuais são mobilizados para contar a história de Dora.Em “Cinema contemporâneo” Felipe André Silva dispara o filme em primeira pessoa, partindo de uma fotografia de família que tem uma história trágica para contar.

experimental

O cinema experimental é conhecido por romper com as estruturas narrativas clássicas, sem a preocupação de apresentar uma história coerente, com começo, meio e fim. Um filme experimental costuma utilizar estratégias de descontinuidade do espaço e do tempo, estabelecendo metáforas e alegorias e possibilitando múltiplas leituras.  

exemplos de filmes experimentais:
“Kbela” justapõe uma série de sequências performáticas para falar sobre o racismo na sociedade brasileira. “Pudim de Morango” também pode ser considerado um filme experimental, com colagem de jornais, desenhos e trechos de novela brasileira. A série “Alívios e Pequenas Mortes” brinca com o poder sugestivo de imagens, sons e gestos.

performance

Uma performance artística pode combinar dança, teatro, artes visuais e música. É um acontecimento com lugar e duração determinados, com a intenção que quem assista reflita sobre uma determinada temática. Uma performance pode ser filmada, como modo de fazer durar esse acontecimento no registro audiovisual, incorporando ao registro a linguagem audiovisual. As performances podem condensar muitos aspectos sobre uma determinada questão e costumam atuar a partir de metáforas e alegorias. 

exemplos de filmes performáticos:
Nos anos 1970, Sônia Andrade e Letícia Parente produziram uma série de vídeos-performances, que tratavam metaforicamente a censura e a violência da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) e o racismo estrutural do país: Sem título, Preparação I, Tarefa I e Marca Registrada. Kbela comporta muitas sequências com performances artísticas. Em Poses, Yolanda Domínguez critica o modo como mulheres aparecem em fotografias de moda, reproduzindo a pose de algumas modelos em espaços públicos.

vídeo poesia

Em um vídeo poesia, uma ou mais poesias são o eixo central da obra. As palavras podem ser combinadas com imagens, narração, efeitos sonoros ou música, a depender da leitura audiovisual que se propõe do poema. 

exemplos de vídeos-poesia:
Conceição Evaristo (1946), a poeta mineira, é o tema do teaser “Ocupação Conceição Evaristo” (2017), do Itaú Cultural. “Linha Única” é um díptico audiovisual do escritor João Anzanello Carrascoza: vídeo 1 e vídeo 2. “Linha Única” combina imagem e texto, em diálogo com três microcontos do livro “Linha Única” de Carrascoza. “Fevereiro” é um vídeo-poema da escritora portuguesa Matilde Campilho, com imagens produzidas pela poeta.

colagem

Em colagens audiovisuais o eixo central estético é a intensa justaposição de fragmentos visuais e sonoros, muitas vezes simulando recortes e colagens de papel. As colagens podem aparecer em sequências de qualquer produção audiovisual e costumam ser produzidas com técnicas de animação.

exemplos de vídeos-colagem:
O videoclipe “The Dream” da banda curitibana Abraskadabra é uma colagem que acrescentou muitos sentidos para o registro da performance do grupo. O videoclipe da música “Chega”, de Duda Beat com Mateus Carrilho e Jaloo também é recheado de colagens digitais. O projeto de conclusão de Victor Ussui, no curso em Tecnologia em Design Gráfico no DADIN/UTFPR, resultou em Cola Comigo: incentivando a prática da colagem entre adolescentes, um vídeo-colagem que valoriza as visualidades e sonoridades da colagem manual, intercalando papéis amassados e rasgados, barulho de tinta, conversas e passarinhos. A colagem também pode ser feita com filmes ou imagens produzidas por outras pessoas. É o que acontece em Rebu – a egolombra de uma sapatão quase arrependida e Movimento, que intercalam imagens das/os realizadoresa/s com imagens de telenovelas, filmes e noticiários. Um dos curtas-metragens mais importantes do cinema brasileiro que usa muitos recursos de colagem é Ilha das Flores.

diário

Normalmente, um vídeo diário utiliza imagens cotidianas para refletir sobre algum aspecto banal da existência: a passagem do tempo, o cotidiano na cozinha, a vista da janela, os trajetos para o trabalho ou uma viagem especial. Um filme diário costuma incluir imagens domésticas e eventualmente, uma narração confessional e autoreflexiva acrescentada posteriormente. 

exemplos de vídeos-diário:
David Perlov produziu por muitos anos os filmes domésticos que compõe “Diário (1973-1983)”, e a narração das imagens foi construída anos depois, misturando fragmentos audiovisuais cotidianos à uma intensa reflexão sobre si e sobre as imagens.

ensaio

Na literatura, um ensaio textual costuma combinar temas distintos, ter como marca a espontaneidade, a divagação, o devaneio, configurando-se mais uma busca do que a apresentação de respostas. Um ensaio pode se movimentar para muitas direções, adotando sistemas de desvios, improvisos ou rodeios, com muitas reflexões em primeira pessoa. No cinema, um filme ensaio pode aderir à muitas imagens e narrações, conduzindo a narrativa por caminhos múltiplos.

exemplos de filmes ensaísticos:
Agnès Varda produziu muitos filmes ensaísticos, que misturam sua figura à de outras pessoas, passando por muitos temas e personagens, incluindo suas narrações, autorretratos, impressões e devaneios. “Um minuto para uma imagem” é uma série de filmes curtos de Agnès, produzida para a televisão. Em cada episódio, Agnès teceu análises bastante livres sobre uma fotografia. Em um dos filmes dessa série, Agnès comenta sobre o frame do filme “Cléo de 5 a 7”-, dirigido por ela mesma e fotografado por Liliane de Kermadec.

videoclipe

Os vídeos musicais são por excelência um espaço para experimentação e hibridismo. Podem incluir performances, poesias, colagens, imagens diarísticas, ficcionais ou documentais, podem, enfim, condensar muitos dos tipos de audiovisuais que vimos até aqui.

instrucional

Vídeos de instruções podem ser produzidos para muitos contextos em que instruções básicas sobre um procedimento específico precisam ser apresentadas, dividindo a feitura de algo em etapas que num vídeo podem ser vistas em detalhes, com destaques e intervenções visuais ou até mesmo personagens, cenários e figurinos.

exemplos de vídeos instrucionais:
Talvez o tipo de vídeo instrucional mais comum seja de vídeos de receita. Estas produções podem apresentar cenários e objetos muito elaborados, como é o caso dos vídeos de Raíza Costa, ou podem ser mais simples, mas ainda eficientes em ensinar um bolo simples de chocolate. Vídeos instrucionais podem misturar imagem com informações gráficas e textuais, animações, música, narração, etc. Produções que orientam como executar um passo de dança, um ajuste no chuveiro ou como colocar, retirar e descartar uma máscara de proteção também entram nesta categoria. No vídeo “Nudes: como fazer”, Camila Cornelsen dá algumas dicas de produção para fazer autorretratos com o telefone celular.

educacional

Vídeos educacionais tem como intenção apresentar temas, conceitos e conteúdos dos mais variados campos do conhecimento. 

exemplos de vídeos educacionais:
O projeto “E eu c/ isso?“ explica alguns aspectos do sistema político brasileiro, com cinco animações curtas. Videoaulas, palestras e conferências também podem entrar na categoria dos conteúdos audiovisuais educacionais, podendo variar bastante no formato e na duração.

promocional

Um filme publicitário pode circular na televisão, na internet, nas redes sociais e nos mais variados dispositivos, em telas espalhadas pelos shopping centers, supermercados ou transportes públicos, oferecendo serviços ou produtos. 

exemplos de vídeos promocionais:
No design um vídeo promocional pode apresentar como um determinado produto ou serviço foi produzido ou como funciona, incluindo variados contextos de uso e de significado que se deseja associar ao projeto. Um exemplo é o vídeo da Luminária Zephyr, Banco Alva e Amplificador Caballero, de Gabriel Leite; ou o vídeo “ELA: editorial autoral e sensorial sobre a desconstrução do corpo feminino”, de Thaís Landi, ambos vídeos promocionais de trabalhos de conclusão de curso no curso de Design da Universidade Federal do Paraná.

estou sem ideias!

Se você não sabe o que fazer, há dois exercícios que dão pano para manga.

Opção 01: Reproduzir uma cena ou um trecho de um filme (longa ou curta-metragem) ou de um videoclipe. Este tipo de projeto também nos ensina muito sobre composição, ritmo, edição. Exige bastante da criatividade na reprodução aproximada de cenários, gestos, etc. E pode ser muito divertido.
Opção 02: Lista audiovisual de pequenos prazeres do cotidiano. Lembra daquela sequência do filme O Fabuloso Destino de Amelie Poulain? Em que a personagem descreve pequenos prazeres? Pois então, tenho certeza que você consegue listar alguns. Uma outra referência é o vídeo The Pleasures of.


FRANÇA, Ana Claudia C. V. de. Como pode ser um projeto audiovisual?. Blog Plástico Bolha, 2021. Acesso em: . Disponível em: <https://anafranca.com.br/como-pode-ser-um-projeto-audiovisual/>.


Publicado por Ana França

Sou professora no Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no campo de Narrativas Visuais e Produção da Imagem. No doutorado pesquisei sobre mulheres no circuito de cinema em Curitiba, entre 1976 e 1989 (PPGTE/UTFPR). Dedico-me a projetos em narrativas visuais e investigações sobre mulheres no audiovisual, nos cruzamentos entre história, narrativa, literatura, texto e imagem.